quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O nojo e eu

Vi uma cena engraçada hoje pela manhã. Numa calçada, nos fundos de um prédio residencial passávamos, em sentido contrário, eu e uma mocinha, uns vinte e muitos, trajada de "executiva" conforme os ditames da capa da Nova deste mês. Óculos escuros, pastinha, paletozinho verde. Modelo 2008.
Ocorre que, por aquelas horas, um cidadão, acompanhado do porteiro do prédio que a tudo assistia com olhar atento e divertido, executava um servicinho sujo para o condomínio. Tanque às costas, aspersor na mão, bancava o Charles Bronson encharcando de veneno um bueiro, a calçada em volta e as baratas que fugiam histéricas.
Fixei nitidamente a expressão de horror que se apossou da "executiva da Nova" enquanto ela saltitava em fuga evitando ser aspergida pelo Desejo de Matar insetos ou, pior, muito pior, ser atropelada pelo estouro das baratas em pânico.
Até aí, tudo normal. A executiva de cara amarrada e óculos escuros tem nojo de baratas. O que vi a seguir é que causou o espanto gerador dessas linhas. Assim que sentiu-se segura, frações de segundo depois, já deixara para trás o estouro das baratas e um feliz exterminador com senso do dever cumprido, encerrou a série acrobática de saltos em sapato alto, apagou a expressão de horror do rosto, amarrou novamente a cara e seguiu seu caminho.
Donde concluo:
Em primeiro lugar, o susto não pode ter sido pequeno. O nojo é uma das sensações mais punjentes que há. Darwinistas devem reconhecer nisso um instinto inato selecionado naturalmente em anos de evolução que nos protege de alimentos estragados, animais e outros seres que nos podem fazer mal. E, ademais, a destreza e a dificuldade de partida da acrobacia evasiva que ela empreendeu bastava para constatá-lo. Mas a expressão de horror foi a maior prova do que se passava com ela. Por trás da frieza dos óculos escuros da executiva estava uma mulher em pânico. Com a testa, o nariz e a boca franzidos, verde de nojo, enquanto saltava o duplo-twist-carpado sem cair do salto, balbuciava interjeições incompreensíveis, num código misto de palavras entrecortadas e grunhidos. Um espetáculo.
Apesar disso, em frações de segundo, sã e salva, nem parecia que passara por tudo isso. Era de novo o retrato da frieza do mundo corporativo. Com o charme da mulher moderna, claro, no seu terninho verde água. Talvez um olhar menos cansado que o meu visse um suor qualquer na testa, um mínimo esgar, fios de cabelo fora do lugar, um leve tremor das mãos ou do passo que denunciasse os fatos recentes. Não vi nada disso. Após o pânico do nojo, a dureza d'alma de anos, ainda que poucos, vivendo na aridez do mundo corporativo.
Apesar do nojo ser uma sensação extrema, o que é provado pela exuberância da sua demonstração, não só a dela, especificamente, mas a de todos nós, e mesmo sendo um sentimento dirigido ao que há de mais repulsivo no mundo, servindo, inclusive, para rechear e colorir nossas desavenças como uma das mais graves demonstrações de desprezo e vileza, nos vemos obrigados a escondê-lo tão logo possível.
O nojo, ou melhor, sua expressão nos expõem ao ridículo. Apesar de atlético, o duplo-twist-carpado de salto, óculos escuros e terninho verde é mesmo meio ridículo. Outro motivo para escondê-lo é a possibilidade da sua utilização como acusação. O adjetivo "nojento" ou, na variante, "um nojo" pode tanto indicar um indivíduo repulsivo quanto alguém esnobe, que tem nojo de tudo. Algo como um aristocrata dos "demos", original como um paulista quatrocentão ou genérico como um Maia. Se bem que, nesses casos, tanto "repulsivo" quanto "esnobe" não comporiam uma decrição das mais infiéis. Por isso, sob pena de ser convidado a filiar-se ao partido, a demonstração de nojo deve ser utilizada sabiamente, com pouca freqüência.

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